4 formas de avaliar o preço justo de um banco
Um guia prático para calibrar preço e retorno de um banco
Desde o início de 2025 o setor financeiro tem passado por uma forte valorização na bolsa.
Assim, resolvi trazer hoje 4 formas simplificadas de estimar o preço justo para um banco.
Usei o Bradesco como exemplo porque recentemente publiquei um estudo mais completo sobre ele (disponível aqui).
E apesar do mercado não ter gostado tanto do último resultado, a postura mais prudente da atual administração me passa a sensação de que a estratégia está no caminho certo.
Dito isso, eu simulei, por 4 métodos, em que faixa de preço o papel começaria a perder atratividade e qual retorno fica embutido em diferentes preços para as ações do Bradesco.
Método 1 - Múltiplos Consolidados
Atualmente as ações preferenciais (PN) do Bradesco (BBDC4) negociam perto de ~9,2x lucros.
Esse patamar já está bem próximo da média histórica (algo como ~9,3x).
Nos períodos em que o banco entregou ROE mais alto (na casa de 17% a 20%), ele chegou a negociar perto de 13x lucros (e, em alguns momentos, acima disso).
Assumindo um lucro projetado para o fim de 2026 de ~R$ 28 bilhões (em linha com o consenso), dá para fazer uma conta simples de valor de mercado via P/L:
na mínima: 6 × 28 = R$ 168 bi → R$ 15,86/ação PN
na média histórica: 9,3 × 28 = R$ 260 bi → R$ 24,55/ação PN
na máxima: 13,4 × 28 = R$ 375 bi → R$ 35,40/ação PN
Método 2 - Reprecificação da Operação Bancária
O Bradesco Seguros é a joia da coroa do grupo.
Só que, nos últimos anos, como a operação bancária apanhou demais, a seguradora acabou “ocupando uma fatia” maior do valor total do Bradesco na Bolsa.
Historicamente, ela costumou representar na média 38% do valor de mercado do grupo.
Então dá para fazer a conta ao contrário.
Premissas:
lucro projetado da seguradora em 2026: ~R$ 11 bi
(estou usando +8% vs 2025, em linha com o crescimento do segmento e abaixo de algumas projeções mais otimistas)
múltiplo da seguradora: 10x lucros
(próximo da média histórica do segmento)
Conta:
valor da seguradora: 10 × 11 = R$ 110 bi
se isso for 38% do grupo: 110 / 0,38 = R$ 290 bi
isso implicaria algo como R$ 27,33/ação PN
Ou seja, se a seguradora fosse isoladamente listada em bolsa, por exemplo, o restante do grupo (principalmente a operação bancária) precisaria estar valendo mais do que vale hoje.
No caso de um eventual split e listagem da Seguradora na bolsa, possivelmente veríamos múltiplos mais esticados do que 10x.
Seria razoável estimar algo próximo de 12x lucros (A Caixa Seguridade - $CXSE3 negocia nesta patamar atualmente).
Neste cenário, o valor equivalente seria:12 x 11 / 0,38 = R$ 347 bi → R$ 32,80/ação PN
Método 3 - Modelo de Crescimento de Gordon
O Modelo de Crescimento de Gordon é uma forma clássica de precificar empresas maduras com dividendos mais estáveis.
A fórmula é:
Preço justo = Div / (k − g)
Onde:
Div = dividendo esperado por ação no próximo ano
k = retorno exigido
g = crescimento de longo prazo (perpétuo)
Premissas que usei:
lucro projetado 2026: R$ 28 bi
número de ações (aprox.): 10,6 bi
→ lucro por ação: 28 / 10,6 = R$ 2,64payout: 50% (média histórica)
→ dividendo por ação: R$ 1,32k = 10%
g = 3,5% (uma inflação de longo prazo mais comportada)
Então:
preço justo = 1,32 / (0,10 − 0,035) = 1,32 / 0,065
Preço justo ≈ R$ 20,30/ação PN
Método 4 - Retorno Implícito
Aqui eu só traduzi o preço em retorno, usando ROE, payout e o valor por ação PN encontrado nos diferentes cenários acima.
Premissas:
ROE atual: 15,2% (último balanço)
payout: 50% (média histórica)
VPA: R$ 16,26 (último balanço)
Crescimento nominal implícito (reinvestimento):
(1 − payout) × ROE = 0,5 × 15,2% = 7,6%
Com isso, dá para estimar o retorno que está “embutido” em cada preço:
No preço de tela atual de R$ 21,27 (25/02/2026), o retorno implícito nominal estaria perto de 13,4% ao ano, ou algo como IPCA + 8,4% se você assumir um IPCA em torno de 5%.
No cenário mais otimista (a 13,4x lucros, R$ 35,40/ação PN), esse retorno cairia para algo como IPCA + 6,1%.
Vale notar que um retorno de IPCA +6% costuma ser um patamar excelente para um título público. Não é uma comparação direta, mas ajuda a calibrar expectativa.
O ponto principal quando montei minha posição é que o papel negociava muito “amassado”, perto de 0,7x patrimônio.
Neste cenário, o retorno embutido calculado ficava próximo de 18% ao ano, ou IPCA + 13%.
Se você quiser acompanhar as oportunidades que eu enxergo hoje com retornos esperados nessa faixa, deixo o convite para acompanhar as movimentações que faço na minha carteira pessoal:
Por fim, reforço que este conteúdo é um exercício metodológico, não uma recomendação. Consulte o Disclaimer completo neste link.
Por hoje é só.
Forte abraço e até a próxima!
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Gosto bastante da maneira como analisa bancos. É bem parecido com minha metodologia de comparar com juros reais de títulos para avaliar a relação de risco e retorno. Aqui, o banco parece ter se reinventado, o que para o investidor pessoa física que sofre muito do Sunk Cost Fallacy, é algo positivo, pois parece que estão em turnaround.