A B3 gera ou destrói valor em suas recompras?
Estudo prático com as recompras da B3 (B3SA3)
Quando uma empresa anuncia a aberta de um programa de recompras de ações de própria emissão, o movimento pode ser vistas sob 02 óticas:
Alocação de Capital
Retorno aos acionistas
Estes dois olhares acabam se entrelaçando em algum momento da análise.
Alocação de Capital
Sob a primeira ótica, subentende-se que, ao optar por destinar capital para a recompra, a gestão está dizendo:
“Ao preço atual, obtenho um retorno melhor ao investir em minhas próprias ações do que em outros projetos”
Ou seja, espera-se que o retorno obtido supere o retorno de novos projetos, expansões, melhorias e afins.
Já sob a segunda ótica, diante de capital excedente, a empresa entende que reduzir a quantidade de ações e consequentemente aumentar o lucro futuro por ação é mais vantajoso do que distribuí-lo via dividendos, por exemplo.
É como se ela garantisse que o dividendo distribuído continuasse sendo reinvestido obrigatoriamente na própria empresa.
Para ficar mais claro, imagine que o Yield total do acionista é composto por:
Dividend Yield: proventos distribuídos (dividendos, JCP’s, bonificações)
Buyback Yield: retorno gerado pelas recompras
E, assim, o Yield total seria = Dividend Yield + Buyback Yield.
Durante as recompras, a empresa entende estar maximizando o retorno ao acionista via Buyback Yield.
R$ 6,1 bilhões em recompras
A B3 (B3SA3) é um dos exemplos mais notáveis para este tema.
Desde jan/24 a out/25 a empresa já alocou R$ 6,1 bilhões em recompras de ações.
Isso equivale a um buyback yield aproximado de 10,10%.
Se somamos a este valor os proventos pagos, o “Total Yield” acumulado nos últimos 23 meses é superior a 14%.
As recompras têm gerado ou destruído valor?
Está é a questão crítica.
A resposta vem da comparação entre a TIR calculada para os preços praticados nas recompras (frente o considerado “valor justo” da empresa) versus o custo de capital.
Se TIR > WACC -> gerou valor
Se TIR < WACC -> destruiu valor
Apresentarei abaixo o estudo feito para a da B3, como exemplo prático.
Histórico de recompras
O primeiro passo foi consolidar o histórico de recompras da companhia nos últimos meses.
Precisei dele para obter (1) o preço médio praticado e (2) a taxa de redução de ações em circulação durante as recompras.
A partir da amostra de dados, cheguei aos valores abaixo:
Preço Médio Praticado: R$ 11,59
Taxa de Redução de Ações em circulação: -3,5% a.a.
Fluxo de caixa por ação
O segundo passo é montar um fluxo de caixa descontado para a empresa.
Mas neste caso, montei um fluxo de caixa por ação, justamente porque preciso considerar o decrescimento na quantidade de ações em circulação como consequência das recompras.
Para isso, partir de premissas de um modelo de valuation pessoal que não vem ao caso (não é recomendação).
Quantidade de Ações Emitidas em Circulação: 5,267 bilhões
Fluxo de Caixa Livre normalizado: R$ 5 bilhões
Crescimento: 6% a.a.
Para calcular a taxa de desconto, usei o simulador de WACC disponível na Apolo:
Segmento de referência: Serviços Financeiros Não Bancários e Não Seguradores
Beta desalavancado do segmento (Damodaran): 0,35
Dívida Bruta: R$ 14,5 bi
Valor de Mercado: R$ 78,8 bi
Índice D/E: 18%
Custo da Dívida: CDI +0,45% (última emissão reportada)
WACC calculado: 13,98%
Assim, adotando as premissas acima, a montei a tabela abaixo:
TIR e geração de valor
Com base no FCL por ação, calculei a TIR e encontrei um valor de 17,28%.
Assim, quando comparamos ao WACC calculado usando a Apolo, de 13,98%, temos:
TIR = 17,28%
WACC = 13,98%
TIR - WACC = 3,30% → Gerando Valor
Portanto, com as premissas adotadas, conclui que, no preço praticado, as recompras da B3 estão gerando valor para seus acionistas.
Dito isso, por mais que a abertura de um programa de recompras passe uma mensagem “bonita” ao mercado, é sempre válido conferir se realmente é uma decisão saudável para a empresa no contexto em que se insere, tanto sob a ótica da alocação de capital quanto do retorno aos acionistas.







você poderia fazer de mais empresas rs, bem interessante