A transição energética brasileira não será apenas elétrica
A biomobilidade pode ser uma das rotas mais relevantes para o país nas próximas décadas
Esta edição parte de uma resenha publicada pela Trígono Capital, assinada por Werner Roger, sobre biomobilidade e transição energética no Brasil (acesse a resenha na íntegra aqui).
O texto original é longo, detalhado e rico em contexto histórico. Ele passa pela história do petróleo, pelo Proálcool, pela tecnologia flex, pelo biodiesel, pelo biometano, pela indústria automotiva, pelo agronegócio e por empresas brasileiras posicionadas em diferentes partes dessa cadeia.
A proposta dessa edição não é reproduzir o texto da Trígono. Aliás, recomendo fortemente a leitura completa da resenha que, apesar de extensa, vale cada minuto dedicado a sua compreensão.
A ideia é usar a tese como ponto de partida para uma reflexão própria, voltada ao investidor pessoa física: talvez estejamos olhando para a transição energética brasileira de forma limitada demais.
Quando se fala em transição energética, muita gente pensa imediatamente em carro elétrico, bateria, energia solar e eólica.
Tudo isso será importante.
Mas, no Brasil, a história provavelmente será um pouco mais ampla.
Se você chegou agora por aqui, não deixe de ler o guia de uso:
O erro ao tratar transição energética como sinônimo de eletrificação
A eletrificação vai avançar. Isso parece claro.
Mas não significa que tudo será elétrico.
Carros de passeio elétricos em grandes centros urbanos são uma coisa. Caminhões, ônibus, máquinas agrícolas, mineração, transporte marítimo, aviação e parte da indústria são outra.
Nesses casos, a substituição completa por eletricidade tende a ser mais lenta, mais cara e mais complexa.
Nesse contexto aparecem os biocombustíveis.
Etanol, biodiesel e biometano não são soluções teóricas no Brasil.
Eles já fazem parte da nossa realidade.
O país tem uma frota flex relevante, produção agrícola em larga escala, tradição em cana-de-açúcar, milho e soja, além de grande potencial de aproveitamento de resíduos orgânicos.
Essa combinação não existe em qualquer lugar do mundo.
Por isso, importar a narrativa de que o futuro será apenas elétrico pode levar a uma análise incompleta ou míope.
O Brasil já começou essa transição há décadas
O Brasil não começou a discutir esse tema ontem:
O Proálcool nasceu nos anos 1970, em resposta aos choques do petróleo.
Depois veio a tecnologia flex.
O etanol ganhou escala.
O biodiesel passou a compor a matriz.
Agora, o biometano começa a ganhar mais relevância.
Ou seja: antes de a expressão “transição energética” virar tema de relatório, evento e apresentação corporativa, o Brasil já estava construindo parte dessa rota.
E isso importa porque uma transição energética real não depende só de boas intenções ESG.
Depende de escala, infraestrutura, conhecimento técnico, cadeia produtiva, regulação e viabilidade econômica.
E nisso o Brasil não parte do zero.
O consumo de petróleo não acabará amanhã
Outro ponto importante: transição energética não significa o fim imediato do petróleo.
Petróleo, gás, eletrificação, biocombustíveis e outras fontes devem coexistir por muitos anos.
A demanda global por energia ainda deve crescer, especialmente em países emergentes.
Mais população, mais renda, mais urbanização e mais produção exigem mais energia.
Portanto, deveríamos nos perguntar: quais soluções conseguem reduzir emissões de forma viável, econômica e escalável durante essa transição?
No caso brasileiro, a biomobilidade parece uma das respostas mais óbvias.
Biomobilidade, em termos simples
Biomobilidade é o uso de combustíveis renováveis de origem biológica para mover pessoas, cargas, máquinas e equipamentos.
Na prática, estamos falando de:
etanol;
biodiesel;
biometano;
combustível sustentável de aviação (SAF);
motores flex;
híbridos movidos a etanol;
ônibus a biometano;
caminhões com combustíveis renováveis;
máquinas agrícolas com menor emissão;
geração de energia a partir de resíduos.
A cadeia é maior do que parece
Uma das partes mais interessantes da tese da Trígono é mostrar que a biomobilidade não envolve apenas produtoras de etanol ou biodiesel.
Existe uma cadeia inteira por trás disso.
A Trígono menciona empresas investidas pelos seus fundos ligadas a diferentes partes desse ecossistema:
A Kepler Weber (KEPL3) aparece como infraestrutura para armazenagem de grãos, silos, secagem, automação e logística agrícola.
A 3Tentos (TTEN3) aparece como uma empresa integrada entre originação agrícola, insumos, grãos, biodiesel, etanol de milho e coprodutos.
A São Martinho (SMTO3) representa a conexão entre cana-de-açúcar, etanol, açúcar, bioeletricidade, etanol de milho e biometano.
A Mahle Metal Leve (LEVE3) aparece ligada a componentes, motores mais eficientes, soluções flex, híbridas e tecnologias automotivas.
A Marcopolo (POMO4) entra pela mobilidade coletiva, com ônibus elétricos, híbridos, movidos a biometano e outras soluções de menor emissão.
A Schulz (SHUL4) aparece como fornecedora de equipamentos e infraestrutura para compressão, purificação, armazenamento e uso de biometano.
A Tupy (TUPY3), por meio da MWM, aparece conectada a motores, geradores, motobombas, biometano, etanol, hidrogênio e aplicações
industriais.
O interessante é que essas empresas não são apenas casos isolados. Elas representam elos de uma cadeia:
Produção agrícola, processamento, energia, motores, transporte, armazenagem e infraestrutura industrial.
Minhas 3 teses diretamente expostas a essa transição
Atualmente carrego em carteira 3 teses diretamente expostas a essa transição.
Elas estão ligadas a três frentes diferentes:
indústria e motores;
agroenergia e processamento de grãos;
biocombustíveis e açúcar.
Quem quiser acompanhar as posições, movimentações e pesos da minha carteira pode acessar por aqui:
O ponto que destaco é que não vejo essa exposição como uma tese de curto prazo.
Vejo como uma alocação em empresas que, se executarem bem, podem se beneficiar de mudanças estruturais na matriz energética brasileira nos próximos anos.
Essa tese exige paciência
A biomobilidade não é uma tese para o próximo trimestre:
A frota muda devagar.
A infraestrutura muda devagar.
A regulação muda devagar.
A indústria muda devagar.
Caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e equipamentos industriais não são substituídos de uma hora para outra.
Por isso, essa é uma tese para 10, 15 ou 20 anos.
Mas isso não significa que qualquer empresa exposta ao tema será um bom investimento.
Uma boa tendência estrutural não salva uma empresa mal administrada ou uma ação comprada pelo preço errado.
O que mais me interessa nessa tese
O ponto mais relevante para mim disso tudo é que o Brasil pode ter uma transição energética baseada em vantagens competitivas reais:
biomassa abundante;
agroindústria forte;
matriz elétrica limpa;
domínio em biocombustíveis;
frota flex;
capacidade industrial;
grande mercado interno;
potencial de aproveitamento de resíduos.
Essa combinação pode permitir que o país não seja apenas consumidor de tecnologias importadas.
O Brasil pode desenvolver soluções próprias, adaptadas à sua realidade.
A biomobilidade pode ser uma estratégia de energia, indústria, agronegócio e desenvolvimento econômico.
Não é apenas uma pauta ambiental.
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Conclusão
A principal contribuição do texto da Trígono é lembrar que o Brasil pode seguir uma rota própria na transição energética.
Não precisamos copiar o caminho dos países desenvolvidos.
Temos biomassa, agroindústria, etanol, biodiesel, potencial em biometano, tecnologia flex etc.
A transição energética não será resolvida por uma única tecnologia.
No caso brasileiro, ela provavelmente será uma combinação de várias soluções.
E a biomobilidade pode ser uma das mais relevantes.
Como sempre, não leve nada do que escrevo aqui como recomendação de compra ou venda (acesse o disclaimer completo aqui).
A intenção é compartilhar racionais, estudos e pontos de atenção para ajudar quem também gosta de analisar empresas com mais profundidade.
Se essa reflexão fez sentido para você, compartilhe esta edição.
Por hoje é só.
Forte abraço e até a próxima.



