Guia prático de qualificação de empresas para investimento em ações
Um roteiro prático para o pequeno investidor qualificar empresas investíveis na bolsa
O sucesso no investimento não vem de estar certo, mas de estar errado com menos frequência do que qualquer outra pessoa.
Aswath Damodaran
Por se tratar de uma edição mais extensa, caso esteja sem tempo para a leitura, fique à vontade para buscar pelas seções abaixo e ir direto ao ponto.
Sumário
Contexto
Diretrizes gerais
Qualidade da empresa e das suas unidades de negócio
Diagnóstico Financeiro
Gestão e Governança
Riscos e Ameaças
Estudo de valor intrínseco
Conclusão
Em função de alguns feedbacks e da demanda recebida, estou avaliando disponibilizar uma Oficina de Finanças Corporativas aplicadas ao Investimento em Ações para o Longo Prazo.
O projeto ainda está em fase de estruturação e, caso tenha interesse, basta preencher o formulário disponível no botão abaixo. Fique à vontade também para sugerir abordagens ou temas que considere relevantes.
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Contexto
Apesar de depender de critérios numéricos, a seleção de ações individuais para fins de investimento tende a ser uma atividade muito mais humana do que exata.
Entendo que o fator humano pesa sobretudo porque as decisões passam, inevitavelmente, pela percepção de valor dos negócios.
Há quem prefira não se expor a esse tipo de julgamento e opte por ETFs ou Fundos de Investimento.
E há os entusiastas, como eu, que não abrem mão de escolher, de forma consciente, as ações que compõem a carteira.
Esse interesse, no entanto, não precisa estar ligado ao objetivo irracional de simplesmente tentar superar o mercado.
Ele deve estar relacionado ao interesse genuíno de se portar como dono de pequenas frações de grandes negócios.
Exceto quando motivado por razões especulativas, investir em ações individuais é, portanto, uma atitude de natureza empreendedora.
Dito isso, após muitos erros ao longo dos últimos anos investindo na bolsa, acredito ter chegado a um método próprio de avaliação, prático o suficiente para ser compartilhado.
Ressalto que esse método é constantemente revisitado e aprimorado, buscando se adaptar às mudanças do mercado.
Sem mais delongas, vamos ao método.
Diretrizes gerais
Assim como comentei no post em que apresentei, de forma macro, minha estratégia de investimento em ações, reforço que, se eu pudesse resumi-la em uma única frase, seria:
Investir em empresas com vantagens competitivas relevantes, com ampla margem de segurança em relação ao valor justo e com capacidade de, no mínimo, manter as vantagens conquistadas por tempo o suficiente para remunerar adequadamente o meu capital.
Reforço esse ponto porque ele orienta toda a estrutura do método.
Para facilitar o entendimento e a aplicação, divido o roteiro de avaliação em cinco etapas:
Qualidade da empresa e das suas unidades de negócio
Diagnóstico Financeiro
Gestão e Governança
Riscos e Ameaças
Estudo de valor intrínseco
Embora não seja obrigatório seguir uma ordem rígida, é recomendável que a análise seja feita de forma sequencial.
Caso uma empresa não seja aprovada em alguma das etapas, a etapa seguinte sequer precisa ser executada, pois ela já estaria eliminada do processo.
Qualidade da empresa e das suas unidades de negócio
Nesta primeira etapa, é necessário mergulhar no modelo de negócio da companhia.
Interagi com centenas de investidores pessoa física nos últimos anos e esta é, de longe, uma das etapas mais subestimadas do processo.
Eu mesmo já cometi esse erro algumas vezes quando comecei.
Aqui, gosto de responder a um questionário básico para garantir que compreendi adequadamente o negócio, como:
Em que setores e segmentos a empresa está inserida?
O que a empresa vende?
Em que geografias ela está presente?
Quais são suas unidades de negócio?
Como o faturamento está distribuído entre unidades de negócio e geografias?
Quem são seus principais concorrentes?
Qual é sua principal vantagem competitiva?
Quais são as vantagens competitivas secundárias?
Existe alguma particularidade, de qualquer natureza, dentro do setor ou segmento, que esteja presente apenas nesta empresa?
Quem são seus principais clientes?
Como o faturamento está distribuído entre esses clientes? Existe algum cliente com concentração muito relevante?
Se você não souber responder a alguma dessas perguntas, ou ao menos não tiver uma referência clara (como suas próprias anotações) para consultar quando necessário, é provável que fique desconfortável ou inseguro com o investimento em algum momento. Isso aumenta a chance de decisões imprudentes.
Esta é a fase mais trabalhosa do processo, pois exige uma investigação profunda do negócio.
Hoje, esse trabalho foi bastante facilitado pelo uso de ferramentas de inteligência artificial.
Ainda assim, é importante lembrar que assistentes de IA são apenas ferramentas de apoio. As informações relevantes devem ser conferidas em fontes primárias, como o site de Relações com Investidores da empresa.
Philip Fisher possui um guia próprio de qualificação de empresas, apresentado em detalhes no livro “Ações comuns, lucros extraordinários”. Recomendo a leitura a todo investidor que deseja aprofundar sua análise
Diagnóstico Financeiro
Superada a primeira etapa, o diagnóstico financeiro exige atenção cuidadosa aos números da empresa.
Para isso, há basicamente duas alternativas:
Obter os dados diretamente no RI da companhia e trabalhá-los no Excel ou ferramenta similar; ou
Utilizar alguma plataforma que já disponibilize esses dados consolidados.
Caso opte pela segunda opção, é importante atentar para a credibilidade das informações da plataforma utilizada.
Infelizmente, existem no mercado algumas soluções que subestimam a importância de um tratamento rigoroso das regras contábeis e do cálculo dos indicadores financeiros, o que acaba resultando em métricas apresentadas de forma incorreta ou incompleta.
Abrindo espaço para o merchan, vale comentar que a Apolo foi construída por especialistas em finanças corporativas, com base em uma base sólida teórica e técnica. Por isso, é hoje minha fonte primária para estudos mais avançados. Clique aqui para acessar.
Nesta etapa, não existe um formulário padrão nem uma regra única.
Ainda assim, alguns pontos precisam ser avaliados com bastante rigor, como:
Saúde financeira, avaliada pelo balanço patrimonial;
Histórico da alocação de capital;
Evolução dos investimentos em ativos;
Tendências de crescimento;
Métricas de lucratividade (margem bruta, operacional e líquida);
Geração de caixa operacional e geração de caixa livre;
Endividamento, alavancagem e prazos da dívida;
Métricas de rentabilidade, como ROE, ROA e ROIC;
Estrutura de capital, considerando capital próprio e de terceiros;
Custo de capital.
Tentar enquadrar esta etapa em uma “caixa padrão” é tecnicamente inviável, dada a enorme variabilidade de condições, causas e consequências refletidas nos números de cada empresa.
Por isso, é necessário desenvolver uma base mínima, tanto teórica quanto prática, em finanças corporativas, para conseguir adaptar a análise a cada situação específica.
Existem fluxos possíveis, quase como um roteiro pragmático, em que um determinado resultado X é consequência das métricas Y e Z, que, por sua vez, derivam de um aumento em A e uma redução em B. Mas ainda assim, não há como padronizar esse processo.
Em função de alguns feedbacks e da demanda recebida, estou avaliando disponibilizar uma Oficina de Finanças Corporativas aplicadas ao Investimento em Ações para o Longo Prazo.
O projeto ainda está em fase de estruturação e, caso tenha interesse, basta preencher o formulário disponível no botão abaixo. Fique à vontade também para sugerir abordagens ou temas que considere relevantes.
Gestão e Governança
Aqui é onde, muitas vezes, o investidor é pego de surpresa.
A empresa nada mais é do que um conjunto de pessoas, denominadas gestoras, responsáveis por alocar recursos e ativos com o objetivo de maximizar o retorno do capital dos acionistas, inclusive o seu, como minoritário.
Portanto, se os interesses desse grupo de pessoas nas empresas em que você investe não estão alinhados aos seus, há um problema relevante.
Esta talvez seja a etapa mais difícil de executar, por ser a mais subjetiva entre todas.
Ainda assim, algumas questões podem ser respondidas com um nível razoável de pesquisa, como:
Quem são os diretores e qual é o histórico profissional deles?
Quais pessoas ou organizações ocupam cadeiras no conselho de administração?
Como é estruturada a remuneração dos executivos e conselheiros? Qual é a base dos programas de bonificação?
Qual é o tom e o nível de transparência das comunicações oficiais e das apresentações de resultados?
Como está o turnover nas principais posições de liderança? Há troca frequente em cargos de diretoria?
Qual é a participação, em percentual, de ações detidas por diretores, conselheiros e controladores atualmente?
Como esses agentes (“insideres”) têm se movimentado no mercado em relação à compra e venda de ações da própria companhia?
Existem programas de recompra em aberto? Se sim, eles estão beneficiando o acionista ou apenas inflando artificialmente o preço das ações?
Em geral, a maior parte das informações necessárias para responder a essas perguntas está disponível no site de RI da companhia, embora nem sempre seja fácil de localizar.
Vale lembrar que as pessoas à frente do negócio são as principais responsáveis, depois de você, por garantir que o seu capital valha mais no futuro do que vale hoje.
Caso você identifique que os interesses da gestão diferem do seu interesse como acionista, vale repensar o investimento na empresa.
Riscos e Ameaças
Neste momento, é necessário buscar, nos registros da companhia e, infelizmente, também nos portais de notícias de mercado (geralmente são péssimas fontes de informação qualificada), quaisquer problemas, riscos ou ameaças que possam afetar a empresa.
Aqui é a hora de assumir o papel de advogado do diabo e procurar por tudo aquilo que pode dar errado.
Buscar pontos de vista contrários aos seus também costuma ser uma boa estratégia. Em vez de pesquisar “vale a pena investir na empresa X?”, procure “por que não investir na empresa X?”.
O conjunto de riscos possíveis é amplo e, por isso, não existe um roteiro único. Ainda assim, esta etapa não pode ser subestimada.
Abaixo estão alguns riscos que precisam ser mapeados com atenção:
Avaliação inadequada de ativos, com balanço inflado;
Perda recorrente de participação de mercado;
Conflitos de interesse da gestão;
Concorrência agressiva sem adequada regulação;
Perda de diferencial competitivo;
Processos judiciais em andamento;
Restrições regulatórias;
Exposição excessiva a um único cliente;
Risco associado a cliente relevante;
Não conformidades contábeis.
Se, ao invés de investir, você estivesse usando seu dinheiro para comprar um carro, por exemplo, provavelmente pesquisaria detalhadamente sobre o histórico do veículo. Verificaria se há multas, registro de roubo, sinistros, financiamento em aberto etc. O mesmo raciocínio deveria ser aplicado à empresa em que você pretende investir.
Não escolha enxergar apenas o que quer ver. Busque por aquilo que precisa ser visto.
Estudo de valor intrínseco
Por fim, se a empresa analisada passou pelas etapas anteriores e chegou até aqui, ela já se mostra apta a ser avaliada em termos de preço e valor.
Vale reforçar a distinção: preço é o que se paga, valor é o que se recebe.
Até este ponto, a análise foi majoritariamente guiada por critérios e vieses de natureza subjetiva.
E mesmo nesta etapa, em que a matemática passa a ter um papel mais central, ainda há uma presença relevante de premissas, suposições e vieses.
Por isso, não se deixe levar apenas pelos números de forma fria e mecânica.
Seguindo adiante, é preciso estimar o valor intrínseco, ou valor justo, da empresa e, em seguida, avaliar se existe margem de segurança adequada para o investimento em suas ações.
Alguns métodos de avaliação que podem ser utilizados, a depender do tipo de negócio, como:
Avaliação por múltiplos históricos da própria empresa;
Avaliação por múltiplos do segmento;
Fluxo de Caixa Descontado (DCF);
Comparação com pares ou concorrentes similares;
Avaliação pelo Valor Líquido dos Ativos (NAV);
Cálculo do valor de reposição.
Após chegar a um intervalo de valor justo da companhia, é necessário compará-lo com o valor de mercado atual e avaliar se a margem de segurança é suficiente para justificar o investimento.
Além disso, é fundamental comparar o retorno esperado do investimento, como a TIR, com o retorno oferecido por alternativas de menor risco, como títulos de renda fixa livres de risco.
É imprescindível que exista um prêmio de risco adequado. Caso contrário, a decisão mais racional é manter o dinheiro em caixa ou buscar outra empresa.
Reforço que valuation está longe de ser uma ciência exata.
Arrisco dizer que, na prática, ele é composto por algo como 95% de premissas e 5% de certeza.
Por isso, capriche na margem de segurança. É ela que tende a absorver seus erros ao longo do tempo.
Particularmente, após estimar o valor justo da empresa, costumo definir um percentual de margem de segurança e, a partir disso, estabelecer meu preço teto para o investimento. É esse preço que preciso respeitar no momento do aporte.
Caso queira entender melhor como defino esses critérios, há um post sobre minha carteira pessoal disponível neste link.
Conclusão
Escrever este post foi bastante agregador para mim.
Fez com que eu revisse todo o método e tentasse traduzi-lo, ainda que de forma superficial, da maneira mais didática que encontrei.
Espero, portanto, que também tenha sido proveitoso para você.
Nas próximas edições, pretendo detalhar a aplicação desse método nas empresas da minha carteira pessoal.
Inclusive, nos últimos dias, destrinchei minhas posições atuais nesta edição: Minha carteira pessoal de ações.
Aproveito para deixar o convite para migrar para o plano pago por aqui. O valor é simbólico e funciona como um incentivo à continuidade do conteúdo. É nesse plano que concentro as análises mais completas.
Além de edições exclusivas com estudos práticos e o acompanhamento da minha carteira pessoal, os leitores pagos também têm acesso a um grupo fechado no WhatsApp, onde compartilho, junto com a comunidade, estudos, insights, planilhas, métodos e outras informações úteis para o dia a dia do investidor.,
Dito isso, encerro por aqui.
Forte abraço e até a próxima.


Aulas hein, muito bom!