Você sabe dizer se o programa de recompras de ações anunciado pela empresa que você investe é uma boa decisão de alocação de capital e, principalmente, se ele é benéfico para você?
A habilidade mais subestimada em um CEO é a capacidade de decidir o que fazer com o caixa gerado nas operações da empresa.
Isso porque a alocação de capital é o que define o sucesso ou o fracasso da empresa no longo prazo, bem como o retorno que será entregue aos acionistas e credores.
E dentre as opções de alocação que a administração de uma empresa listada em bolsa tem, está a recompra de ações da própria companhia.
A recompra de ações (ou buyback) é a operação em que uma empresa de capital aberto utiliza seus recursos financeiros (caixa) para comprar suas próprias ações que estão sendo negociadas no mercado.
O objetivo por trás desse movimento costuma ser a redução de ações em circulação e o futuro aumento do lucro/caixa livre por ação.
Então, de forma simplificada, é um processo de remuneração indireta do acionista, mas que depende de alguns fatores para ser considerado uma boa alocação de capital.
Ao mesmo passo, ao executar as recompras, a empresa sinaliza ao mercado que está achando suas ações descontadas o suficiente para justificar o movimento.
Assim, ao longo dessa edição, irei explorar e definir quais são, na minha visão, os aspectos fundamentais que devem ser avaliados quando uma empresa decide executar a recompra de suas ações.
Ao final da edição, deixo uma lista de 5 ações que parecem estar gerando valor aos acionistas via recompras.
O que você verá nesta edição
Como funciona um programa de recompra de ações
A relação entre o valor intrínseco e as recompras
O efeito prático e matemático
TIR, WACC e ROIC: o que isso tem a ver?
Recompras vs Proventos: o que é mais eficiente?
Estudo de caso das recompras na Vale (VALE3)
Checklist de avaliação de programas de recompra
5 excelentes empresas que estão recomprando suas ações
Onde e como acompanhar os programas de recompra em andamento
Como funciona um programa de recompra de ações
Um programa de recompra pode ser dividido em 3 etapas: Aprovação, Comunicação e Execução.
Aprovação
Primeiramente, ao definir que a recompra será executa, o conselho de administração precisa deliberar e definir:
a quantidade máxima de ações que poderão ser recompradas;
o volume financeiro máximo a ser empenhado na operação;
o prazo da operação (início e término); e
o destino dos ativos.
O destino das ações recompradas costuma ser (1) a tesouraria, para o futuro cancelamento, ou (2) distribuição aos executivos da companhia, como bônus e incentivo de longo prazo.
Sobre a opção (2) acima: pelo lado positivo, se o corpo executivo é detentor de ações da companhia, espera-se que ajam de maneira mais alinhada aos acionistas minoritários, visto que o próprio interesse está em jogo.
Mas não é raro encontrar casos em que parte da remuneração do executivo se dá via ações e, logo que ele as recebe, já as vende a mercado, embolsando o valor financeiro da venda.
Portanto, a opção (1) é mais interessante para os minoritários, desde que os demais aspectos fundamentais que abordarei a seguir sejam respeitados.
Essas duas movimentações (bonificações seguidas de vendas) são públicas. Mostrarei onde encontrá-las nas seções seguintes.
Comunicação
Após a aprovação pelo conselho, a empresa avisa o mercado por meio da publicação de um Fato Relevante enviado aos órgãos reguladores, como a CVM no Brasil.
Exemplo: a imagem abaixo traz um comunicado recente, do dia 19/08/2026, com um novo programa de recompras anunciado pela Tim (TIMS3). Os destaques em amarelo constituem os pontos principais do comunicado, com os detalhes do programa de recompras aprovado:
Execução
Uma vez aprovado e anunciado, a empresa pode executar as recompras no mercado secundário (Bolsa de Valores).
É importante mencionar que a empresa não tem a obrigatoriedade de recomprar 100% da quantidade pretendida e anunciada.
Por isso, é importante acompanhar não só o anúncio, mas também o andamento e o encerramento dos programas.
Não é raro encontrarmos programas que foram abertos e sequer foram minimamente executados.
Particularmente, quando isso acontece, eu interpreto da seguinte forma:
A empresa quis sinalizar para o mercado que achava sua própria ação descontada, mas, no fundo, ela não tinha convicção sobre o valor intrínseco do seu próprio negócio, ou não acreditava que o retorno ao alocar o capital dessa forma era adequado.
Por isso, nestes casos, minha visão é mais negativa do que positiva (como deveria ser).
A relação entre o valor intrínseco e as recompras
O livro “The Outsiders” trata de 8 CEO’s que entregaram retornos que literalmente humilharam o S&P 500 e seus pares de setor.
Eles não tinham negócios excepcionais, mas alocaram o caixa desses negócios de forma extremamente disciplinada e admirável.
Não por coincidência, as recompras de ações foram uma das alocações de capital mais utilizadas por eles.
Esses mecanismos eram muito mal compreendidos pelo mercado da época (e ainda parecem ser, pelo menos por aqui). Os investidores não entendiam como e quanto elas poderiam gerar de valor para os acionistas.
É comum encontrarmos empresas executando recompras de forma “programática” (todo trimestre ou todo mês, independente do preço).
A questão é que um “CEO outsider” só recompra de maneira oportunista, ou seja, só quando o preço faz sentido frente ao valor intrínseco do negócio.
É a mesma lógica que um investidor de valor segue ao administrar seu portfólio: comprar quando houver margem de segurança.
Dois grandes exemplos, mencionados no livro, merecem ser destacados: Henry Singleton (Teledyne) e Tom Murphy (Capital Cities).
Henry Singleton, da Teledyne, tratava a ação da própria empresa como “só mais um ativo no portfólio”: comprava agressivamente quando estava barata e parou de recomprar (e até emitiu ações) quando ficou cara.
Singleton chegou ainda a usar as ações supervalorizadas da Teledyne como "moeda de troca" para comprar mais de 130 empresas de diversos setores (tecnologia, aeroespacial, defesa e até seguros), transformando a empresa em um poderoso conglomerado.
Quando o mercado de ações caiu e os conglomerados saíram de moda, em vez de continuar comprando outras empresas, ele percebeu que as próprias ações da Teledyne estavam baratas demais.
Singleton então chegou a recomprar cerca de 90% das ações em circulação da empresa entre 1971 e 1984.
Isso fez com que o valor gerado para os acionistas disparasse de forma exponencial, com um retorno composto de 20,4% a.a. por quase 30 anos:
Já Tom Murphy, da Capital Cities, tinha uma regra bem simples: só recomprava quando conseguia comprar a ação da própria empresa “mais barato do que comprar uma emissora de TV comparável no mercado privado”.
Ou seja, ele comparava o preço da ação contra o valor de reposição de um ativo operacional real.
As referências do livro em questão reforçam o ponto de que uma recompra bem-feita exige que a administração saiba, no mínimo, calcular adequadamente o valor intrínseco do negócio e recomprar suas ações somente quando o preço de mercado for inferior a este valor.
O efeito prático e matemático
Imagine uma empresa “XPTO” com as seguintes características:
1 bilhão de ações XPTO3 emitidas e em circulação
Preço atual da ação: R$ 8,00
Valor de mercado atual: R$ 8 bilhões
Valor intrínseco calculado para o negócio: R$ 10 bilhões, ou R$ 10,00 por ação
Geração de caixa livre anual*: R$ 1 bilhão
Geração de caixa livre anual por ação*: R$ 1,00
*Geralmente usam o lucro líquido nos exemplos, mas idealmente nos importa mais o caixa livre do que o lucro.
Considere então que a administração, sabendo que o preço das ações XPTO3 na bolsa está inferior ao valor intrínseco por ação calculado, decide aprovar um programa para recomprar até 5% das ações em circulação.
Após executar completamente o programa, a empresa opta por cancelar as ações recompradas.
Assumindo todo o resto constante, o novo cenário seria:
950 milhões de ações XPTO3 emitidas e em circulação
Geração de caixa livre anual por ação: R$ 1,05
Ou seja, a geração de caixa livre por ação cresceu, mesmo sem um crescimento absoluto do caixa livre total gerado.
Ao mesmo tempo, a participação do acionista no negócio cresceu, visto que o “mesmo bolo” agora está sendo dividido em menos fatias.
O efeito composto disso no tempo tende a ser expressivo, como visto nos exemplos do livro mencionado na seção anterior, mesmo em negócios que não crescem tanto.
Estendendo a simulação do exemplo acima: se a empresa XPTO recomprar 5% das suas ações por ano, durante 20 anos, e mantiver o FCL estável (sem crescimento real acima da inflação), o fluxo de caixa livre por ação praticamente triplicaria no período:
Isso importa porque o FCL livre por ação naturalmente tende a se refletir no preço pago pelo mercado por uma fatia desse negócio.
Exemplo: considere que no ano 0 a ação era negociada a R$ 8,00, como mencionado anteriormente, e que a empresa tem uma política formal de distribuição de 50% do FCL via dividendos.
Assim, teríamos:
Ano 0 (preço da ação: R$ 8,00)
FCL por ação: R$ 1,00
Dividendos por ação: R$ 0,50
Dividend Yield Anual: 6,25%
Ano 10 (se o preço da ação continuasse em R$ 8,00)
FCL por ação: R$ 1,67
Dividendos por ação: R$ 0,835
Dividend Yield Anual: 10,4%
Ano 20 (se o preço da ação continuasse em R$ 8,00)
FCL por ação: R$ 2,79
Dividendos por ação: R$ 1,395
Dividend Yield Anual: 17,4%
Neste caso, a reprecificação da ação seria quase inevitável.
O mercado não é 100% eficiente, mas em “condições normais”, ele não deixaria uma ação tão mal precificada a ponto do dividend yiel permanecer, de forma recorrente, em um patamar tão elevado quanto o do cenário simulado no ano 20 acima.
Por isso, o preço da ação tenderia a subir “para normalizar” o yield e levá-lo para um patamar mais razoável.
Com isso, o acionista ganharia com (1) o aumento do FCL por ação e (2) com a valorização das ações.
Mas a questão principal é que a recompra, quando bem executada, praticamente garante o retorno para o acionista, com ou sem a reprecificação das ações pelo mercado, desde que uma condição que explico adiante seja atendida.
TIR, WACC e ROIC: o que isso tem a ver?
Se o preço pago pelas ações for superior ao valor intrínseco do negócio, a recompra estará destruindo valor econômico.
Você já sabe que, ao calcular o valor intrínseco de uma empresa, basicamente trazemos a valor presente os seus fluxos de caixas futuros, descontados a uma taxa adequada.
A “taxa adequada” em questão costuma ser o WACC (Custo Médio Ponderado de Capital), quando avaliamos o Fluxo de Caixa Livre da Firma.
Dito isso, vale relembrar ainda que:
se ROIC > WACC → há geração de valor econômico
se ROIC < WACC → há destruição de valor econômico
Assim, assumindo que a recompra é apenas uma forma da empresa alocar capital, para que essa decisão de alocação não destrua valor econômico do negócio, o retorno sobre esse capital (ROIC) deve ser superior ao WACC da companhia.
E como medir o “ROIC” de uma recompra?
Aqui está o pulo do gato.
Assumindo que o valor intrínseco do negócio é conhecido e foi calculado adequadamente, e que há margem de segurança no preço atual frente a este valor, podemos concluir que a TIR do fluxo de caixa projetado é superior ao WACC da empresa.
Então, o “ROIC” da recompra é basicamente a TIR calculada a partir do preço pago pelas ações durante o programa.
Ao mesmo passo, caso o preço pago seja superior ao valor intrínseco do negócio (cenário com margem de segurança zerada ou negativa), a TIR seria inferior ao WACC, resultando em uma destruição de valor a longo prazo.
Esse raciocínio facilita a interpretação sob a ótica de alocação de capital.
Se uma empresa não tem projetos de capital que entreguem um ROIC suficiente para haver geração de valor econômico, o programa de recompras é uma opção natural, desde que a TIR implícita no preço da ação seja superior ao WACC da empresa.
Se TIR > WACC → Há margem de segurança no preço frente ao valor intrínseco.
Recompras vs Proventos: o que é mais eficiente?
Com todo o racional construído até aqui, a resposta à pergunta acima é objetiva e racional.
A recompra é uma alocação mais inteligente quando:
A ação negocia abaixo do valor intrínseco
Não há um uso melhor para o capital (não há investimentos orgânicos ou M&A’s com retorno superiores à TIR implícita na recompra e/ou acima do custo de capital)
O regime fiscal favorece
A distribuição de proventos acaba sendo mais interessante quando:
O preço da ação está próximo ou acima do valor justo
A base de acionistas depende da renda recorrente (controladores familiares, fundações, instituições governamentais)
Não existem projetos que justifiquem reter o capital para reinvesti-lo (reduz a tentação de manter muito caixa e fazer uma má alocação com ele)
No Brasil, a opção pela distribuição de proventos acabam sendo mais comuns por razões regulatórias e fiscais:
Isenção Fiscal: Os dividendos distribuídos por empresas listadas na B3 são historicamente isentos de Imposto de Renda para o investidor pessoa física (isenção de até R$ 50 mil por mês recebidos de uma mesma empresa);
Juros sobre Capital Próprio (JCP): Uma exclusividade brasileira. O JCP funciona como um provento que deduz o lucro tributável da empresa (reduzindo o IRPJ/CSLL dela), transferindo um imposto de 15% retido na fonte para o investidor;
Obrigatoriedade: A Lei das S.A. exige que as empresas distribuam um dividendo mínimo obrigatório (geralmente 25% do lucro líquido ajustado) se o estatuto for omisso.
Já nos Estados Unidos, por exemplo, as recompras de ações movimentam quantias trilionárias e costumam superar com folga os dividendos:
Penalidade Fiscal nos Dividendos: Os dividendos nos EUA são tributados. Para investidores brasileiros que investem diretamente ou via BDRs, a retenção na fonte é de 30%.
Diferimento de Imposto: O acionista se beneficia do ganho de capital (a ação costuma subir) sem pagar imposto imediatamente. Ele só pagará quando decidir vender suas ações no futuro.
Se você ainda não é assinante, assine com 30% de desconto (somente até 30/09/26) para acessar a parte mais valiosa dessa edição:
Estudo de caso das recompras na Vale (VALE3)
Checklist de avaliação de programas de recompra
5 excelentes empresas que estão recomprando suas ações
Onde e como acompanhar os programas de recompra em andamento
Estudo de caso das recompras na Vale (VALE3)
Um dos casos brasileiros mais interessantes e expressivos de recompras executadas nos últimos anos é o da Vale (VALE3).
Nos últimos anos, a empresa:





