Radar de Ações #003
Visões rápidas e diretas sobre ações que sigo de olho.
Nesta edição, vou falar sobre duas companhias bastante conhecidas da bolsa brasileira: Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3).
As duas atuam no mesmo setor e, em linhas gerais, ganham dinheiro alugando carros, gerenciando frotas corporativas e revendendo veículos seminovos.
Apesar das semelhanças, o mercado enxerga as duas empresas de forma bastante diferente.
Enquanto a Localiza costuma negociar com prêmio relevante, a Movida frequentemente aparece entre as ações mais descontadas da bolsa.
Mas será que esse desconto é justificado?
O modelo de negócio
As empresas basicamente:
Compram veículos;
Alugam durante alguns anos;
Vendem esses ativos no mercado de seminovos.
Ou seja, o negócio depende da capacidade de comprar bem, operar bem e vender bem.
Pequenos erros em qualquer uma dessas etapas podem afetar significativamente a rentabilidade.
Além disso, trata-se de um setor intensivo em capital.
As empresas utilizam dívida para financiar boa parte da frota, tornando juros e condições de crédito variáveis extremamente importantes.
Localiza (RENT3)
A Localiza é a líder absoluta do setor.
Após a incorporação da Unidas, ampliou ainda mais sua escala e hoje opera uma frota superior a 600 mil veículos.
Sua atuação está dividida entre aluguel de carros para pessoas físicas, gestão de frotas corporativas e venda de seminovos.
O principal diferencial da companhia está justamente na escala.
A Localiza compra volumes gigantescos de veículos, possui uma marca extremamente consolidada e consegue negociar condições comerciais que poucos concorrentes conseguem replicar.
O que gosto:
Liderança de mercado.
Escala difícil de replicar.
Marca muito forte.
Histórico consistente de execução.
Forte presença em gestão de frotas, segmento que tende a apresentar receitas mais previsíveis.
Maior poder de negociação junto às montadoras.
O que exige atenção:
Sensibilidade aos juros.
Depreciação dos seminovos.
Concorrência crescente.
Possível pressão sobre preços de usados com a entrada de novas marcas, especialmente fabricantes chinesas.
Endividamento ainda elevado para financiar a frota.
Movida (MOVI3)
A Movida é a segunda maior locadora do país.
Controlada pelo grupo Simpar, a companhia adotou historicamente uma postura mais agressiva de crescimento, buscando ganhar participação de mercado através da expansão da frota e da abertura de novas operações.
Hoje possui uma frota próxima de 275 mil veículos.
Comparada à Localiza, é uma empresa menor, mais alavancada e naturalmente mais sensível aos ciclos econômicos.
Por outro lado, essa diferença de porte também ajuda a explicar parte do desconto observado na ação.
O que gosto:
Valuation significativamente mais baixo.
Potencial de ganho de participação de mercado.
Frota mais jovem.
Boa capacidade de execução nos últimos anos.
Gestão com histórico relevante dentro do grupo Simpar.
O que exige atenção:
Menor escala.
Alavancagem mais elevada.
Dependência maior de condições favoráveis de crédito.
Maior volatilidade nos resultados.
Menor margem para erros operacionais.
O momento atual
As duas empresas passaram por um período bastante desafiador nos últimos anos.
A combinação de juros elevados, aumento dos custos de financiamento e oscilações no mercado de seminovos trouxe bastante volatilidade para o setor.
Ainda assim, os resultados recentes têm mostrado sinais positivos.
A Localiza reportou lucro recorde no primeiro trimestre de 2026, impulsionada principalmente pela operação de seminovos e pela eficiência operacional.
A Movida também apresentou números fortes e recordes, com crescimento expressivo do ROIC e cumprimento das metas divulgadas ao mercado.
Além disso, a companhia anunciou um programa de recompra de ações, sinalizando confiança da administração nos preços atuais.
O principal ponto que sigo observando para ambas continua sendo o mesmo: juros.
Uma trajetória consistente de queda da Selic tende a beneficiar diretamente o setor, reduzindo despesas financeiras e melhorando a rentabilidade sobre a frota.
Curiosidade:
Desde 2024, a Movida tem recomprado suas ações com certa frequência.
As recompras realizadas de dez/24 até agora representam cerca de 5,6% do capital social da companhia.
A Localiza, por sua vez, fez recompras menos frequentes, mas bastante expressivas em ago/24 e out/24:
A grande diferença de precificação
O mercado costuma atribuir um prêmio muito relevante à Localiza.
Isso acontece porque a companhia é vista como o ativo de maior qualidade do setor.
Escala, liderança, histórico de execução e menor risco percebido justificam parte dessa diferença.
Já a Movida negocia com desconto significativo.
A interpretação do mercado parece ser:
Localiza oferece mais previsibilidade.
Movida oferece mais risco.
Mas isso também significa que, caso o cenário setorial melhore, a Movida tende a apresentar uma expansão de múltiplos mais relevante.
Em 2025, por exemplo, enquanto RENT3 se valorizou cerca de 98%, MOVI3 subiu +196%:
Perspectivas de longo prazo
Independentemente da empresa escolhida, continuo gostando da tese estrutural do setor.
O Brasil ainda possui uma penetração relativamente baixa da locação de veículos quando comparado a mercados mais maduros.
Além disso, existe uma tendência gradual e geracional de substituição da propriedade pelo uso/serviço.
Assinaturas, terceirização de frotas e locação corporativa continuam ganhando espaço.
Isso cria um ambiente favorável para crescimento de longo prazo.
A eventual queda dos juros, quando ocorrer de forma mais consistente, também tende a funcionar como um importante catalisador para ambas as companhias
Destaco o uso acima do termo “catalisador”, ou seja, um componente capaz de acelerar uma reação, mas não causá-la por si só.
Por qual eu me interesso mais?
Se eu tivesse que escolher entre elas, apenas com base em aspectos qualitativos, provavelmente escolheria a Localiza.
A companhia possui vantagens competitivas mais claras, histórico mais longo de execução e uma posição dominante difícil de contestar.
Por outro lado, o mercado já sabe disso. E normalmente cobra/paga caro por essa qualidade.
Assim, a Movida acaba me chamando mais atenção quando olho o conjunto preço + melhora operacional dos últimos anos.
Se o cenário de juros evoluir de forma favorável e a companhia continuar entregando a melhora operacional que tem sido destaque nos últimos trimestres, existe espaço para uma reprecificação mais relevante, mesmo já tendo saído de ~R$ 3 no início de 2025, superado os ~R$ 14 nos últimos 12 meses, e retornado para os atuais ~R$ 9 por ação.
Aproveito para listar abaixo uma série de posts nos quais compartilhei de forma mais detalhada a minha visão para a Movida, inclusive meu valuation base para MOVI3:
Movida: a virada operacional começa a aparecer nos números
Movida (MOVI3) | Estudo de valor intrínseco
Antirruído: o que explica a alta de mais de 300% nesta ação?
Como sempre, não leve nada do que escrevo aqui como recomendação de compra ou venda.
A intenção é compartilhar racionais, estudos e pontos de atenção para ajudar quem também gosta de analisar empresas com mais profundidade.
Não deixe de ler o disclaimer completo aqui.
Mas e aí: você tem acompanhado alguma das duas?
Abraço e até a próxima!
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